A casa que não existiu

O blog abriu espaço para um artigo escrito pelo advogado Marcos Souto Maior, onde é relatada uma história de ousadia, coragem e amor que tem início com a compra feita pela sua esposa (a arquiteta e paisagista, Bia Campelo) de uma bela casa secular no Centro Histórico e, que na opinião do signatário, servirá de inspiração para outros profissionais liberais e empresários.

 

  • Por Marcos Souto Maior

 

Há uma cena que se repete nos comentários da série “Comprei uma Casa Abandonada”: pessoas escrevendo que assistiram duas, três, quatro vezes. Que choraram. Que foram procurar casarões abandonados na própria cidade. Os 13 milhões de visualizações impressionam — mas o que a série não mostra, e que poucos sabem, é que essa casa quase não chegou às mãos de quem soube salvá-la.

Casarões centenários como o D’Ávila Lins raramente têm um dono só. Têm herdeiros espalhados, matrículas desatualizadas, décadas de silêncio administrativo e, com frequência, embargos de obra que travam qualquer intervenção antes mesmo que ela comece. É nesse terreno — mais jurídico do que arquitetônico — que a história de resgate do casarão realmente começa.

O CASARÃO

Cem Anos de Silêncio

No bairro do Tambiá, na Rua Monsenhor Walfredo Leal, ergue-se o Casarão D’Ávila Lins — uma mansão construída em 1916, no auge do estilo eclético que definia o gosto da elite nordestina do início do século passado. Colunas neoclássicas, ornamentos de estuque e uma escadaria monumental em arco resistiram a mais de cinquenta anos de abandono. A vegetação fez seu próprio projeto de ocupação: uma figueira centenária cresceu para dentro da estrutura, as raízes descendo pela fachada como braços que abraçam o que o tempo esqueceu.

Foi nesse cenário — entre o sublime e o desolador — que Beatriz Campelo pisou pela primeira vez. Arquiteta paisagista com mais de quinze anos de projetos de alto padrão, Bia enxergou não uma ruína, mas uma possibilidade.

 

A Batalha Que Veio Antes do Projeto

Toda reforma de impacto tem um arquiteto na frente das câmeras. Poucas mostram quem trabalhou nos bastidores para que a obra sequer pudesse começar. No caso do Casarão D’Ávila Lins, esse trabalho coube ao advogado Marcos Souto Maior Filho — marido de Beatriz e responsável pela frente jurídica e comercial do projeto.

Antes de qualquer restauro, havia um imóvel historicamente valioso e juridicamente travado: era preciso localizar e negociar com os proprietários legítimos, equacionar pendências de titularidade acumuladas ao longo de décadas de abandono e destravar embargos e restrições administrativas que impediam qualquer intervenção de obra no local. Sem esse trabalho — silencioso, técnico, sem uma câmera por perto — a figueira centenária continuaria crescendo sozinha dentro das ruínas.

A frase resume o que a série de vídeos não mostra: entre a decisão de preservar a figueira e o primeiro tijolo assentado, existiu uma etapa inteira de regularização que determina, na prática, se um projeto de restauro patrimonial sai do papel ou morre na gaveta. É esse tipo de trabalho — pouco glamouroso, mas decisivo — que viabilizou tudo o que veio depois.

A Figueira Que Mudou Tudo

Quando projetos de restauração preveem a derrubada de vegetação invasiva, ninguém costuma questionar — é procedimento padrão, quase burocrático. Diante da figueira que havia colonizado o casarão, Beatriz Campelo fez a única pergunta que importava: a árvore fica? A resposta afirmativa gerou o episódio mais comentado da série, com 782 mil visualizações para um vídeo que, essencialmente, discute se uma árvore deve ser cortada.

A decisão reconfigurou todo o projeto. Bia Campelo desenvolveu uma solução inédita no Brasil: um teto de vidro que revelará, de dentro do espaço restaurado, a copa centenária da árvore contra o céu de João Pessoa.

13 Milhões de Testemunhas

A série “Comprei uma Casa Abandonada” não nasceu como produto de conteúdo. Nasceu da necessidade de documentar uma jornada — e encontrou seu público exatamente por isso. O primeiro episódio alcançou 3,5 milhões de visualizações sem qualquer investimento em mídia paga. O terceiro repetiu o feito. Ao todo, seis episódios, mais de 13 milhões de visualizações e um tempo médio de permanência que envergonha produções com orçamentos milionários.

Os comentários revelam algo mais raro que audiência: identificação profunda. Arquitetos escrevem sobre projetos que sempre quiseram fazer. Moradores de João Pessoa descrevem casarões que conhecem e temem ver desaparecer. Pessoas de outras cidades passaram a pesquisar imóveis históricos em suas próprias regiões, inspiradas pelo que aconteceu no Tambiá.

João Pessoa e Seus Casarões: O Que Está em Jogo

A história do Casarão D’Ávila Lins não é exceção em João Pessoa. A terceira cidade mais antiga do Brasil, fundada em 1585, tem um Centro Histórico tombado pelo IPHAN desde 2007, com edificações que vão do barroco do século XVII ao art déco das décadas de 1920 e 1930. O Tambiá, onde o casarão está localizado, integra essa área protegida — mas proteção legal e preservação efetiva costumam ser coisas bem distintas, e é justamente nessa distância que a maioria dos casarões históricos se perde.

O estilo eclético do casarão é característico do início do século XX paraibano: uma arquitetura que não escolhe entre o neoclássico e o art nouveau, mas os abraça simultaneamente. Colunas, frisos e arcos sobreviveram ao abandono com uma integridade estrutural que especialistas descrevem como surpreendente — desde que alguém, primeiro, resolvesse o problema documental que mantinha o imóvel congelado no tempo.

Beatriz Campelo, arquiteta paisagista, e que está por trás da Casa

Beatriz Campelo Souto Maior é arquiteta paisagista. Radicada em João Pessoa, dirige o escritório BC Paisagismo, com portfólio de projetos residenciais e comerciais de alto padrão em toda a região nordestina. No Instagram, construiu uma audiência fiel de arquitetos, designers e entusiastas que reconhecem em seu trabalho um olhar sofisticado sobre a relação entre edificação e natureza.

Marcos Souto Maior Filho — Advogado

Advogado com mais de duas décadas de atuação em João Pessoa,Marcos assina a frente jurídica e comercial da Casa Campelo de Cultura. Coube a ele acreditar no projeto quando este ainda era apenas uma ideia, localizar os proprietários do imóvel, negociar a aquisição e destravar os entraves administrativos que, por anos, mantiveram o casarão fora de qualquer possibilidade de restauro. Se a Casa Campelo de Cultura existe hoje como projeto viável, é porque essa etapa invisível foi vencida antes que a primeira parede fosse erguida.

Uma Casa Para a Cidade

O programa de usos da Casa Campelo de Cultura foi pensado para criar camadas de frequentação: um café botânico e um bistrô para o visitante cotidiano, uma galeria de arte para uma agenda cultural permanente, e um paisagismo — assinado pela própria Beatriz Campelo — que integra a vegetação exuberante, com a figueira centenária como estrela, à experiência do conjunto.

Do ponto de vista urbano, o projeto tem uma dimensão maior: ao restaurar um imóvel histórico no Tambiá, o casal demonstra que a preservação pode ser, ao mesmo tempo, juridicamente viável, culturalmente relevante e midiaticamente poderosa. É um argumento com 13 milhões de testemunhas — e uma advertência sobre quantos outros casarões da cidade seguem esperando por alguém disposto a resolver, primeiro, os seus problemas de papel.

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